O
inverno ainda persiste lá fora, a chuva cai deslizando preguiçosamente e de
forma parcelada com intermitência durante os dias de maio. Os transeuntes são
poucos na cidade, estão em casa com medo do inimigo que não se pode ver. A vida
deles estar de cabeça para baixo. Tudo mudou, ou quase tudo, já que muitas
ações do nosso antigo cotidiano ainda persistem devido sua força histórica e
por meio que organizar a política do coletivo, pelo menos foi seu pretexto que
a fez ter um parto no meio social.
Alguns
ainda atônitos, meio levianos ou indiferentes a esse novo contexto insistem em
não perder sua vida. Parecem com medo de perder o mundo que lhes deu sentido
para algo que não se pode ver. Se comportam assim como uma forma de
resistência, como se fosse um protesto contra a vida. Sentem-se como se
estivessem sendo injustiçados, afinal uma crise acentua nossas percepções por
convidar a reflexão. E esse novo mundo ao qual tivermos que ser todos
resilientes veio provocar nossas crenças e balançar as estruturas que sustentam
nossa essência.
A
chuva aumenta, um desses acordar no meio da manhã, mais um dos muitos que
tiveram sua rotina alterada. Não sabe o que fazer, se perdeu e parece que vai
demorar até se reencontrar, acho que vai ser depois que essa nova vida acabar.
Até lá a vida para o senhor Raimundo vai ser esse tédio sem fim. Não sabe ficar
sozinho, há muito tempo não se percebia, era o tempo todo distraído de si com
as obrigações sociais e tinha se acostumado com essa vida. Agora é um fardo ter
sua própria companhia, não aguenta mais, quer sua vida de volta, a vida que lhe
deu sentido desde infante.
Levantando-se
ele olha o relógio e ver o dia inteiro como um inimigo, já que não faz a menor
ideia de como vivê-lo na solidão. Viúvo, e sem família que ela possa se
lembrar. Diz para si...
-
Que desgraça de vida...Quarentena virou solidão. Até as formigas tem companhia.
Prepara
o café, toma rapidamente como que para evitar as reflexões que a primeira
refeição pode desembocar. Já não aguenta mais nem os próprios pensamentos. Olha
pela janela a rua vazia, poucos pedestres passando, nem parece que existe
amanhecer nessa nova vida, tudo parece cinza, os meninos que brincavam na rua
já não ver faz tempo, não saem, não tem mais aulas para eles. Tudo parou.
Perdeu o brilho e principalmente o sabor.
Lembra-se
dos colegas de trabalho e sente falta, não deles pois não é muito sociável, mas
da sua rotina, pois ela o ajudava a disfarça seus vazios interiores. Agora por
ter que ficar sozinho por obrigação sente que foi levado a visitar ele mesmo, a
vasculhar sentimentos que antes a rotina o ajudava a colocar para debaixo do
tapete. Estar sendo um horror estar em si mesmo. O vazio o preenche o dia
inteiro, e não sabe mais o que pensar e fazer para sobreviver, nem com os
vizinhos tem contato. É um homem acostumado com a vida de antes,
institucionalizado pelo cotidiano de outrora. Agora perdeu seu chão, seu
sentido de viver.
Pensa
pesarosamente, sente seu corpo como algo que não lhe pertence, como um fardo.
Algo difícil de suportar. A chuva retorna maviosamente fazendo-o desejar gritar
para as gotas que caem sobre o teto para ter a vida de antes, ter pelo menos
uma sobra de vida. De repente se dar conta de quer tem algo que pode fazer
melhorar. Anda pela casa, olha para a estante e ver um porta-retrato da sua
amada Maria de Jesus que já tinha falecido a mais de vinte anos e lembra dos
momentos ao seu lado como os mais importantes de sua biografia. Sente como as
gotas da chuva lá fora as lágrimas caírem da cachoeira de seus olhos.
Passeia
agora pelo quarto, mexe no guarda-roupa vasculhando as roupas antigas, depois
de muito tempo encontra um terno preto antigo muito amassado. Veste-se
combinando com a calça. Depois passeia arrumado pela casa olhando cada detalhe
ainda com os olhos marejados. Sente dentro de si uma vontade de sumir como se a
encarnação pesasse sobre si, como se sentir-se nojo de respirar. Pega a corda e
amarra sobre a coluna se erguendo numa cadeira. Depois envolve a outra ponta no
pescoço, direciona seu pensamento para Maria de Jesus e se desprende da
cadeira. Tendo somente o som da chuva como a trilha sonora e como as únicas
lágrimas de seu velório solitário.
A corda
o fez se libertar do peso de ser que era, da vida insalubre que o preenchia, da
solidão de estar consigo. A quarentena revelou quem ele era e isso foi o
estopim para o seu verdadeiro fim, já que desde da perda da sua amada a vida
sempre fora sem graça como se vivesse somente a espera por esse momento do seu
falecimento para se libertar. O isolamento só o fez abreviar por revelar seu
verdadeiro eu que não conseguia mais suportar por a vida de antes camuflar.
Renato
Jr. 02.05.2020

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