“Me
matei a minha vida inteira.” Disse o senhor Gonzaga depois que seu rosto estava
inundado de lágrimas. Não tinha mais fome, não conseguia sentir o sabor das
coisas, não via o brilho de viver. Perdeu a esperança, a amargura era o perfume
da sua essência. A apreensão tomava conta de seu coração. Não sabia mais como
continuar a viver, o sentido de seu existir veio à tona. Não tinha forças nem
para respirar, o fôlego que o mantinha vivo agora começava a sentir nojo dele
como se fosse um inimigo.
Os
planos de futuro que tinha feito no dia anterior foram todos destruídos em
segundos. A felicidade que literalmente ontem lembrava como algo distante o
corroía por dentro por talvez nunca mais ela viver. A dor que o feria
transpassava seu pulsar, sangrava a alma, era como se o chão não mais o segurasse
e a perplexidade o invadia por inteiro fazendo-o gemer de chorar e se pondo
gritar. A vida que tinha construído havia sido colocada em prova. Procurava
entender o porquê e não conseguia se conformar com a possibilidade de sua vida
desabar. Era viúvo e os filhos já crescidos raramente apareciam. Sentou-se na
cama.
- Que medroso eu fui! Balbuciou para si.
Como se o filme de sua vida passasse diante dos seus olhos.
Se
pôs absorto no quarto vazio e bagunçado porque já tinha se revoltado contra
tudo. Não entendia o porquê aquilo estava acontecendo justamente com ele.
Procurava respostas, mas nada lhe via a mente. Começou a rememorar os momentos
de sua vida. E lembrou-se dos momentos
que poderia ter feito diferente, poderia ter ousado mais, poderia ter se
entregado mais. Não é nada fácil ou melhor é impossível reeditar o passado.
Nesta agonia sentia o peso existencial do arrependimento de não ter sido ele
mesmo.
-
Por que não tive coragem de desfazer a falsidade, porque mantinha um personagem
para os outros, quando o verdadeiro eu sempre clamava dentro de mim para sair,
para que eu pudesse viver a leveza de ser eu mesmo. Acho...acho que no fundo tinha medo de ser eu
mesmo por medo da repreensão dos outros...acho que sabia inconscientemente que
meu eu verdadeiro não seria bem visto pelas pessoas...Os “privilegiados pela loucura”
como Clarice Lispector disse são feitos de fama às avessas e no fundo eu tinha
medo disso..parecia que faltava essa coragem de me assumir para ser
pleno....Que pena que me vesti de normalidade a vida inteira só para me
proteger, mas não sabia que na verdade estava me ferindo, eu estava me atacando
e me roubando de mim.
Continuava
a conversar consigo como se pela primeira vez a falsidade que sustentou o
personagem do seu falso eu estivesse ausente. Sentia como se sua alma estivesse
despida, sem filtros, sem atuação, só ele com ele mesmo. Pegou o papel na cabeceira da cama e encarou-o
por muito tempo com respiração ofegante. Desviou o olhar e avistou os pedestres
pela janela, contemplava com uma ternura nunca dantes feita, era como se visse
o mundo pela última vez. As lágrimas retornaram a adornar seu rosto e voltou o
pensamento para a esposa Antônia Maria que já tinha falecido dez anos antes.
Recordou os momentos que dividiram, as alegrias vividas e até deu um tristonho
sorriso. E os filhos vieram a mente, como se pudesse reunir todos eles naquele
momento, já que estão espalhados pelo mundo. Lembrou de cada um com aperto como
se enchesse de um desespero.
Pegou
o papel novamente e começou abrir levemente. Tinha recebido no dia anterior do
médico e o medo só o deixou abrir agora. Sentia seu eu inteiro agitar e
finalmente seu maior medo se confirmou quando leu o exame positivo para câncer
no estômago com o subtítulo “estágio avançado”. Sua incredulidade e desespero
agora se multiplicaram. Seu eu sofria infinitamente, não pelo medo de perecer,
mas por ter a sensação de não ter vivido de verdade por sempre ter deixado a
falsidade assumir o lugar do seu eu de verdade. Sentia um arrependimento
existencial. E neste momento repetiu baixinho entre soluços fazendo ainda mais
sentido.
-
Realmente “me matei a minha vida inteira.”
Renato Jr Entre 09 e 10 de 05/ 2020

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