segunda-feira, 25 de maio de 2020

A PAZ ME MATOU.




O andarilho exercia sua essência no centro pacífico da cidade. Amanheceu, mas a cidade não acordou. Os carros que compunham o cotidiano sumiram, dava para se atravessar as ruas tranquilamente. Os pedestres matinais ninguém vê mais, o silêncio na avenida era ensurdecedor. Enlouquecendo o senhor Antônio Furtado, que já não suportava mais o horror daquela paz.
Morava nas ruas a mais de vinte anos quando saiu da sua terra natal desiludido por confusões familiares. Não entendia as razões desse novo cenário. Não entendia como o mundo que era seu abrigo tinha se transformado num deserto. Passava pelas ruas sem vida que chegava a se perguntar onde todo mundo foi parar. Os ambientes estavam diferentes, uns vazios outros com pouca gente. As pessoas estavam distantes umas das outras, usavam máscaras e quando senhor Antônio se aproximava sem essa proteção facial alguns o evitam externando sinais para manter distância. Ele que já sofria preconceito pela sua condição de vida não estranhou, já estava acostumado em receber olhares indiferentes, e de prepotência.
Senhor Antônio ouviu falar do vírus chinês quando percebeu comentários de duas pessoas que conversavam sobre mortes na Itália. Ele a princípio ficou indiferente, não acreditando que um ser invisível pudesse a tanta gente machucar e fazer o mundo parar. Não queria aceitar aquela realidade. Não compendia como agora iria sobreviver, pois não tinha a ninguém mais recorrer, já que os que o ajudavam com pratos de comida de vez em quando agora estavam em casa. Não podia aceitar estar agora numa situação nunca dantes imaginada.
Tempo passado e a dificuldade aumentando, e a assim se viu passeando pela praça vazia. Esse local tinha a fama de ser o abrigo dos andarilhos e mendigos. Até que no final viu um grupo de amigos de rua que viviam lá faz uns dez anos. Quando se aproximou viu várias pessoas ao redor do senhor Francisco de 51 anos ardendo em febre e parecia não ter escapado do vírus. Eles tentaram levar para o hospital em meio aos clamores que vem quando se ver alguém aos poucos se desfazer. Andaram trinta metros apenas com ele nos braços e sentiram seu último respiro. Todos em silêncio ficaram, e o choro foi como um coro. Era como se vissem seus futuros na imagem do amigo que se desfez.
O sentimento de abandono tomou conta de Antônio Furtado. A rua que tinha se sido sua única companheira agora era uma inimiga por abrigar o vírus inimigo. Não tinha o privilegio de estar numa quarentena. Sentia-se desnorteado, como se o caos tomasse conta da sua alma e falava:
- Nunca pensei que até o céu que era meu teto poderia ser meu inimigo por abrigar o inimigo

Ainda pensativo na morte do amigo deu por si de que sua saúde começava a piorar quando sintomas começaram a se manifestar. Foi então que se deu conta de seu amigo poderia o ter contaminado. Horas passaram e foi ficando cada vez pior, neste momento o desespero tomou conta de seu peito como uma agonia paralisante. Não podia acreditar. O desespero já era tanto que já andava cambaleando com medo da morte. E não teve outra sorte depois de um pouco andar, deitou no banco da praça sem ninguém o testemunhar e dormiu para nunca mais acordar.
Ele que só queria a sua vida de volta, não para ser melhor, mas para ser o que era antes, pois a solidão que vivia era amenizada pelo barulho do ambiente urbano, esse caos da cidade o fazia se sentir menos só, mesmo com os preconceitos que recebia. Eles eram sua companhia. Com o esvaziamento do mundo sua solidão dilatou virando amargura e desencantamento por ter perdido de si o sentido que a vida “normal” de antes dava para seu existir.



Renato Jr 23/05/2020

segunda-feira, 18 de maio de 2020

O MELHOR DE MIM




O barulho do vento ressoa lá fora da casa, chove muito em dezembro. Senhor João, estar sentado na sala com a taça de vinho na mão admirando a paisagem, olhando pela janela embaçada pelas gotas que agora a enfeitam. Num assombro deixa de contemplar para absorto ficar. Rememora a infância quando saia nessas ocasiões para na chuva brincar. Lembra com ternura da magia que era fazer peripécias, como se dono do mundo fosse. Correndo com os amigos sem com os perigos se importar, vivendo somente o regozijo da adrenalina.
Seu pensamento nostálgico é interrompido pela sua esposa que a passos mudos o assustou. Sorrindo mutuamente, sentou-se em seu colo. O senhor João suspirou e contou o que estava a pensar.
- Como são lindos a beleza dos momentos, parece que recordar faz valorizar de um jeito que a felicidade do momento no nosso pensamento volta e faz a gente perceber como foi bom nosso viver. As alegrias da mocidade, as paixões, as aventuras, os sofrimentos e decepções são a molduram que sustentam a singularidade da nossa biografia.
Ela sorriu da beleza de suas palavras e disse:
-Ah! Querido, viver é como ser os construtores de nós mesmos. A beleza de estamos vivos é justamente sermos o protagonista do enredo da nossa história pessoal.
Finalizou fazendo um brinde com o marido

O senhor João depois de mais goles lembrou de como a conheceu:
- Lembra da noite cultural na escola?
Ela riu e respondeu:
- Como poderia esquecer. Você era meio tímido e sempre ficava nervoso ao falar comigo, mas naquela noite você estava diferente, tinha algo novo em você, dava para perceber. Sabe, apesar de já te conhecer da sala de aula foi a partir daquela noite e do que aconteceu que eu olhei para você de modo diferente, por isso digo sempre que foi a partir dali que te conheci.
-Sério?   -  Respondeu surpreendido Senhor João
- Sim, tinha algo em você que parecia misterioso – disse ela

- Sabe porque eu estava diferente? Antes da noite cultural ainda em casa disse a meu pai que não iria porque aquele não era um local pra mim, e não me importaria com a nota baixa que tiraria por ausência na peça de teatro. Meu pai com seu jeito bruto e sábio de ser disse com voz firme “Se deixar o pior de você te vencer é isso que você vai ser.” Naquele instante, aquelas palavras caíram dentro de mim como uma luz a me encher de confiança e me despertar para mudar os rumos da minha biografia. A confiança que adquiri foi tão grande no meu íntimo que falei do meu secreto amor por você. E ele deu sábios estímulos e conselhos para não perder a oportunidade desse sentimento viver.
Sua esposa que ouvia surpreendida respondeu:
- Uau! Não sabia que já gostava de mim desde antes da peça.
- Sim, desde a quarta série. Por isso meu nervosismo com sua presença.
            A chuva apertava e os raios agora estavam impiedosos. Entre taças de vinho para aquecer do frio os dois passaram a rememorar vários momentos tendo os trovões como trilha sonora dessa deleitosa conversação. Até lembraram novamente do pai do senhor João por estar sendo preparada a reforma do seu túmulo que já estava velho depois de 25 anos do seu falecimento.
            - Ele foi muito bem nas palavras, se não fosse por sua sábia interferência não teríamos dividido a vida - disse Rosália, esposa de senhor João.
            - Sim, com certeza. Devo minha felicidade por ter você a ele. Depois daquele dia nunca mais fui o mesmo, comecei a escrever uma nova história, queria ser e viver além do pior de mim. Foi a partir dali eu mesmo me conheci - Respondeu com dolorosa saudade.
            Entre mais goles Rosalia disse: E a peça? Lembra que você quebrou o protocolo do texto?
            Sorriu senhor João e disse: - Claro, a mim estava dado o papel de figurante, e eu era apenas na estória o empregado da casa que ia deixar as cartas de amor do seu patrão a sua amada que era interpretada por você. Tinha poucas falas e lembro da multidão que assistia ao ver surpreendida a revelação de amor do arauto pela moça e mais ainda surpreendida a professora vendo seu roteiro ser desajustado. Lembro da sua expressão a também se surpreender Rosália. Você dizia para voltar para o texto e não entendia o que estava acontecendo. Até que eu decidi mudar radicalmente aquele roteiro clichê e agarrei-a beijando-a com ternura e paixão incontida. E a plateia antes entediada de repente toda ficou a gritar como que a homenagear a história real que ali se iniciava. E depois do ósculo eu disse com alegria: “Esse enredo é muito melhor.”
            - Ufa! Que poder tem as palavras daqueles que nos amam, com a autoridade afetiva não se brinca. – Disse Rosália lembrando desse ato como inspiração vinda do pai dele.
            As recordações duraram mais que a chuva e os estoques de vinhos, deixando garrafas vazias espalhadas pela sala. Nem perceberam o tempo passar quando começaram a ouvir o barulho da vida pós temporal retornar, os carros passando, os pedestres começando a rua a povoar. Senhor João levantou-se foi a janela abrir, e a claridade do mundo invadiu a casa, em seguida começou a secar onde a chuva tinha deixado suas marcas. Depois desse serviço terminar foi organizar o sofá onde tinha dormido e na mesinha ao lado viu com emoção o porta-retrato de Rosália que viúvo a mais de 10 anos o deixará. As lágrimas brotaram e a agradeceu por tê-lo no sonho visitado e com ele rememorado a felicidade de ter vivido ao seu lado. E disse “o pior de mim não me venceu por você ter sido o melhor de mim.”    



Renato Jr 16/05/2020

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Me matei a minha vida inteira!




“Me matei a minha vida inteira.” Disse o senhor Gonzaga depois que seu rosto estava inundado de lágrimas. Não tinha mais fome, não conseguia sentir o sabor das coisas, não via o brilho de viver. Perdeu a esperança, a amargura era o perfume da sua essência. A apreensão tomava conta de seu coração. Não sabia mais como continuar a viver, o sentido de seu existir veio à tona. Não tinha forças nem para respirar, o fôlego que o mantinha vivo agora começava a sentir nojo dele como se fosse um inimigo.
Os planos de futuro que tinha feito no dia anterior foram todos destruídos em segundos. A felicidade que literalmente ontem lembrava como algo distante o corroía por dentro por talvez nunca mais ela viver. A dor que o feria transpassava seu pulsar, sangrava a alma, era como se o chão não mais o segurasse e a perplexidade o invadia por inteiro fazendo-o gemer de chorar e se pondo gritar. A vida que tinha construído havia sido colocada em prova. Procurava entender o porquê e não conseguia se conformar com a possibilidade de sua vida desabar. Era viúvo e os filhos já crescidos raramente apareciam. Sentou-se na cama.
    - Que medroso eu fui! Balbuciou para si. Como se o filme de sua vida passasse diante dos seus olhos.
Se pôs absorto no quarto vazio e bagunçado porque já tinha se revoltado contra tudo. Não entendia o porquê aquilo estava acontecendo justamente com ele. Procurava respostas, mas nada lhe via a mente. Começou a rememorar os momentos de sua vida.  E lembrou-se dos momentos que poderia ter feito diferente, poderia ter ousado mais, poderia ter se entregado mais. Não é nada fácil ou melhor é impossível reeditar o passado. Nesta agonia sentia o peso existencial do arrependimento de não ter sido ele mesmo.
- Por que não tive coragem de desfazer a falsidade, porque mantinha um personagem para os outros, quando o verdadeiro eu sempre clamava dentro de mim para sair, para que eu pudesse viver a leveza de ser eu mesmo.  Acho...acho que no fundo tinha medo de ser eu mesmo por medo da repreensão dos outros...acho que sabia inconscientemente que meu eu verdadeiro não seria bem visto pelas pessoas...Os “privilegiados pela loucura” como Clarice Lispector disse são feitos de fama às avessas e no fundo eu tinha medo disso..parecia que faltava essa coragem de me assumir para ser pleno....Que pena que me vesti de normalidade a vida inteira só para me proteger, mas não sabia que na verdade estava me ferindo, eu estava me atacando e me roubando de mim.
Continuava a conversar consigo como se pela primeira vez a falsidade que sustentou o personagem do seu falso eu estivesse ausente. Sentia como se sua alma estivesse despida, sem filtros, sem atuação, só ele com ele mesmo.  Pegou o papel na cabeceira da cama e encarou-o por muito tempo com respiração ofegante. Desviou o olhar e avistou os pedestres pela janela, contemplava com uma ternura nunca dantes feita, era como se visse o mundo pela última vez. As lágrimas retornaram a adornar seu rosto e voltou o pensamento para a esposa Antônia Maria que já tinha falecido dez anos antes. Recordou os momentos que dividiram, as alegrias vividas e até deu um tristonho sorriso. E os filhos vieram a mente, como se pudesse reunir todos eles naquele momento, já que estão espalhados pelo mundo. Lembrou de cada um com aperto como se enchesse de um desespero.
Pegou o papel novamente e começou abrir levemente. Tinha recebido no dia anterior do médico e o medo só o deixou abrir agora. Sentia seu eu inteiro agitar e finalmente seu maior medo se confirmou quando leu o exame positivo para câncer no estômago com o subtítulo “estágio avançado”. Sua incredulidade e desespero agora se multiplicaram. Seu eu sofria infinitamente, não pelo medo de perecer, mas por ter a sensação de não ter vivido de verdade por sempre ter deixado a falsidade assumir o lugar do seu eu de verdade. Sentia um arrependimento existencial. E neste momento repetiu baixinho entre soluços fazendo ainda mais sentido.
- Realmente “me matei a minha vida inteira.”






Renato Jr  Entre 09 e 10 de 05/ 2020

domingo, 3 de maio de 2020

CHUVAS DE MAIO


O inverno ainda persiste lá fora, a chuva cai deslizando preguiçosamente e de forma parcelada com intermitência durante os dias de maio. Os transeuntes são poucos na cidade, estão em casa com medo do inimigo que não se pode ver. A vida deles estar de cabeça para baixo. Tudo mudou, ou quase tudo, já que muitas ações do nosso antigo cotidiano ainda persistem devido sua força histórica e por meio que organizar a política do coletivo, pelo menos foi seu pretexto que a fez ter um parto no meio social.
Alguns ainda atônitos, meio levianos ou indiferentes a esse novo contexto insistem em não perder sua vida. Parecem com medo de perder o mundo que lhes deu sentido para algo que não se pode ver. Se comportam assim como uma forma de resistência, como se fosse um protesto contra a vida. Sentem-se como se estivessem sendo injustiçados, afinal uma crise acentua nossas percepções por convidar a reflexão. E esse novo mundo ao qual tivermos que ser todos resilientes veio provocar nossas crenças e balançar as estruturas que sustentam nossa essência.
A chuva aumenta, um desses acordar no meio da manhã, mais um dos muitos que tiveram sua rotina alterada. Não sabe o que fazer, se perdeu e parece que vai demorar até se reencontrar, acho que vai ser depois que essa nova vida acabar. Até lá a vida para o senhor Raimundo vai ser esse tédio sem fim. Não sabe ficar sozinho, há muito tempo não se percebia, era o tempo todo distraído de si com as obrigações sociais e tinha se acostumado com essa vida. Agora é um fardo ter sua própria companhia, não aguenta mais, quer sua vida de volta, a vida que lhe deu sentido desde infante.
Levantando-se ele olha o relógio e ver o dia inteiro como um inimigo, já que não faz a menor ideia de como vivê-lo na solidão. Viúvo, e sem família que ela possa se lembrar. Diz para si...
- Que desgraça de vida...Quarentena virou solidão. Até as formigas tem companhia.
Prepara o café, toma rapidamente como que para evitar as reflexões que a primeira refeição pode desembocar. Já não aguenta mais nem os próprios pensamentos. Olha pela janela a rua vazia, poucos pedestres passando, nem parece que existe amanhecer nessa nova vida, tudo parece cinza, os meninos que brincavam na rua já não ver faz tempo, não saem, não tem mais aulas para eles. Tudo parou. Perdeu o brilho e principalmente o sabor.
Lembra-se dos colegas de trabalho e sente falta, não deles pois não é muito sociável, mas da sua rotina, pois ela o ajudava a disfarça seus vazios interiores. Agora por ter que ficar sozinho por obrigação sente que foi levado a visitar ele mesmo, a vasculhar sentimentos que antes a rotina o ajudava a colocar para debaixo do tapete. Estar sendo um horror estar em si mesmo. O vazio o preenche o dia inteiro, e não sabe mais o que pensar e fazer para sobreviver, nem com os vizinhos tem contato. É um homem acostumado com a vida de antes, institucionalizado pelo cotidiano de outrora. Agora perdeu seu chão, seu sentido de viver.
Pensa pesarosamente, sente seu corpo como algo que não lhe pertence, como um fardo. Algo difícil de suportar. A chuva retorna maviosamente fazendo-o desejar gritar para as gotas que caem sobre o teto para ter a vida de antes, ter pelo menos uma sobra de vida. De repente se dar conta de quer tem algo que pode fazer melhorar. Anda pela casa, olha para a estante e ver um porta-retrato da sua amada Maria de Jesus que já tinha falecido a mais de vinte anos e lembra dos momentos ao seu lado como os mais importantes de sua biografia. Sente como as gotas da chuva lá fora as lágrimas caírem da cachoeira de seus olhos.
Passeia agora pelo quarto, mexe no guarda-roupa vasculhando as roupas antigas, depois de muito tempo encontra um terno preto antigo muito amassado. Veste-se combinando com a calça. Depois passeia arrumado pela casa olhando cada detalhe ainda com os olhos marejados. Sente dentro de si uma vontade de sumir como se a encarnação pesasse sobre si, como se sentir-se nojo de respirar. Pega a corda e amarra sobre a coluna se erguendo numa cadeira. Depois envolve a outra ponta no pescoço, direciona seu pensamento para Maria de Jesus e se desprende da cadeira. Tendo somente o som da chuva como a trilha sonora e como as únicas lágrimas de seu velório solitário.
A corda o fez se libertar do peso de ser que era, da vida insalubre que o preenchia, da solidão de estar consigo. A quarentena revelou quem ele era e isso foi o estopim para o seu verdadeiro fim, já que desde da perda da sua amada a vida sempre fora sem graça como se vivesse somente a espera por esse momento do seu falecimento para se libertar. O isolamento só o fez abreviar por revelar seu verdadeiro eu que não conseguia mais suportar por a vida de antes camuflar.

Renato Jr.  02.05.2020