O
barulho do vento ressoa lá fora da casa, chove muito em dezembro. Senhor João,
estar sentado na sala com a taça de vinho na mão admirando a paisagem, olhando
pela janela embaçada pelas gotas que agora a enfeitam. Num assombro deixa de contemplar
para absorto ficar. Rememora a infância quando saia nessas ocasiões para na
chuva brincar. Lembra com ternura da magia que era fazer peripécias, como se
dono do mundo fosse. Correndo com os amigos sem com os perigos se importar,
vivendo somente o regozijo da adrenalina.
Seu
pensamento nostálgico é interrompido pela sua esposa que a passos mudos o
assustou. Sorrindo mutuamente, sentou-se em seu colo. O senhor João suspirou e
contou o que estava a pensar.
-
Como são lindos a beleza dos momentos, parece que recordar faz valorizar de um
jeito que a felicidade do momento no nosso pensamento volta e faz a gente
perceber como foi bom nosso viver. As alegrias da mocidade, as paixões, as
aventuras, os sofrimentos e decepções são a molduram que sustentam a singularidade
da nossa biografia.
Ela
sorriu da beleza de suas palavras e disse:
-Ah!
Querido, viver é como ser os construtores de nós mesmos. A beleza de estamos
vivos é justamente sermos o protagonista do enredo da nossa história pessoal.
Finalizou
fazendo um brinde com o marido
O
senhor João depois de mais goles lembrou de como a conheceu:
-
Lembra da noite cultural na escola?
Ela
riu e respondeu:
-
Como poderia esquecer. Você era meio tímido e sempre ficava nervoso ao falar
comigo, mas naquela noite você estava diferente, tinha algo novo em você, dava
para perceber. Sabe, apesar de já te conhecer da sala de aula foi a partir
daquela noite e do que aconteceu que eu olhei para você de modo diferente, por
isso digo sempre que foi a partir dali que te conheci.
-Sério? -
Respondeu surpreendido Senhor João
-
Sim, tinha algo em você que parecia misterioso – disse ela
-
Sabe porque eu estava diferente? Antes da noite cultural ainda em casa disse a
meu pai que não iria porque aquele não era um local pra mim, e não me
importaria com a nota baixa que tiraria por ausência na peça de teatro. Meu pai
com seu jeito bruto e sábio de ser disse com voz firme “Se deixar o pior de
você te vencer é isso que você vai ser.” Naquele instante, aquelas palavras caíram
dentro de mim como uma luz a me encher de confiança e me despertar para mudar
os rumos da minha biografia. A confiança que adquiri foi tão grande no meu
íntimo que falei do meu secreto amor por você. E ele deu sábios estímulos e
conselhos para não perder a oportunidade desse sentimento viver.
Sua
esposa que ouvia surpreendida respondeu:
-
Uau! Não sabia que já gostava de mim desde antes da peça.
-
Sim, desde a quarta série. Por isso meu nervosismo com sua presença.
A chuva apertava e os raios agora
estavam impiedosos. Entre taças de vinho para aquecer do frio os dois passaram
a rememorar vários momentos tendo os trovões como trilha sonora dessa deleitosa
conversação. Até lembraram novamente do pai do senhor João por estar sendo
preparada a reforma do seu túmulo que já estava velho depois de 25 anos do seu
falecimento.
- Ele foi muito bem nas palavras, se
não fosse por sua sábia interferência não teríamos dividido a vida - disse Rosália,
esposa de senhor João.
- Sim, com certeza. Devo minha
felicidade por ter você a ele. Depois daquele dia nunca mais fui o mesmo,
comecei a escrever uma nova história, queria ser e viver além do pior de mim. Foi
a partir dali eu mesmo me conheci - Respondeu com dolorosa saudade.
Entre mais goles Rosalia disse: E a
peça? Lembra que você quebrou o protocolo do texto?
Sorriu senhor João e disse: - Claro,
a mim estava dado o papel de figurante, e eu era apenas na estória o empregado
da casa que ia deixar as cartas de amor do seu patrão a sua amada que era
interpretada por você. Tinha poucas falas e lembro da multidão que assistia ao
ver surpreendida a revelação de amor do arauto pela moça e mais ainda
surpreendida a professora vendo seu roteiro ser desajustado. Lembro da sua
expressão a também se surpreender Rosália. Você dizia para voltar para o texto
e não entendia o que estava acontecendo. Até que eu decidi mudar radicalmente
aquele roteiro clichê e agarrei-a beijando-a com ternura e paixão incontida. E
a plateia antes entediada de repente toda ficou a gritar como que a homenagear
a história real que ali se iniciava. E depois do ósculo eu disse com alegria:
“Esse enredo é muito melhor.”
- Ufa! Que poder tem as palavras
daqueles que nos amam, com a autoridade afetiva não se brinca. – Disse Rosália
lembrando desse ato como inspiração vinda do pai dele.
As recordações duraram mais que a
chuva e os estoques de vinhos, deixando garrafas vazias espalhadas pela sala.
Nem perceberam o tempo passar quando começaram a ouvir o barulho da vida pós
temporal retornar, os carros passando, os pedestres começando a rua a povoar.
Senhor João levantou-se foi a janela abrir, e a claridade do mundo invadiu a
casa, em seguida começou a secar onde a chuva tinha deixado suas marcas. Depois
desse serviço terminar foi organizar o sofá onde tinha dormido e na mesinha ao
lado viu com emoção o porta-retrato de Rosália que viúvo a mais de 10 anos o
deixará. As lágrimas brotaram e a agradeceu por tê-lo no sonho visitado e com
ele rememorado a felicidade de ter vivido ao seu lado. E disse “o pior de mim
não me venceu por você ter sido o melhor de mim.”
Renato Jr 16/05/2020